Os meus sentidos podiam resumir-se ao cheiro. Penso com o cheiro. Toco as memórias com o odor. E aqui na minha cama de lençóis brancos, cheiro o fim do verão e cheiro o teu corpo longe e paralelo ao meu. Inalo a melancolia de uma saudade obrigatória. Não reclamo da tatuagem delineada com aroma da pele morena. Apetece-me o aroma do café desenhado na nossa chávena, reflectida com a espuma do mar de cheiro a sal. E o meu corpo reclama a minha manta alaranjada quente e suave. Embrulho as minhas pernas nuas e descanso na solidão, do meu gato preto, que ronrona a minha quietude estranha! Quase adormeço na melodia da língua doce que me encanta o passado, aconchegada num tu de memórias de todos os odores que me embriagam, inebriam, me tolhem a razão e me hidratam o corpo quase desnudo. Os cheiros! Odores! Sempre eles! E se eles não existissem?! Seria um corpo desalmado, despido de vida, despido de mim!
Começou o dia no capricho da maquilhagem. Desenhou, a passos milimétricos, o risco sombra nos seus olhos verdes que falavam a cor verde do frio matinal de uma manhã de Agosto! Tem sido frio este Agosto! Escovou o cabelo longo, agora mais escuro de um violeta muito amor-imperfeito. A maquilhagem estava de facto perfeita! Sem encontro marcado, sem espera sedutora, sem magia ou imaginação. Vestiu-se simples, mostrando apenas um fio de seda em cruz, que despertava o seu decote para o feminino. Ela é o feminino! No balançar do seu andar de saltos altos, no verniz das unhas que evitam, quando querem, a sua assinatura na pele de um homem, no anel sem compromisso selado. Cheira a feminino, toca o corpo em rendas indecorosas. Podia até ter o nome de Maria e ser a mulher impura e desejável em qualquer cama de nomes que a esperam. Ela é a mulher, a fêmea, a outra da vontade incontida, a mãe dos caprichos doces dos filhos, a esposa de um caminho de flores sem odor e de incenso de aroma incompleto. É tanta coisa no feminino e é assim que ama aquele homem, no feminino! Com paixão, entrega, exclusividade! Depois parou! Abriu o saco cheio de coisas de mulher, a confusão feminina! O gloss e a caneta preta, a chave do carro perdida bem à frente dos seus olhos, papéis soltos sem importância e nomes femininos espalhados, palavras insinuantes de exclusividade de um deus, sedução gratuita de olhares sem significado. Um jogo de dados num tabuleiro de damas, e um rei, que faz xeque-mate, em cada partida, num deserto, cheio, abundante, de véus multicolores que ele vai desvelando, irreverente e inconsequente! E naquele repente de um saco de mulher desordenado de emoções, olhou-se no pequeno espelho por ali perdido, e viu o seu olhar, delineado ao pormenor, de uma frieza racional, objectiva e pragmática, a viajar longe do seu lugar de Vénus e sentar-se confortável e fácil, num singular masculino de Marte!
O lenço de cor de areia, acetinado, deslizou no peito dela. Embalado num aperto de angústia que lhe fazia doer a alma. Sentiu uma calma gélida. Olhou a noite fria, de um Agosto inquietante e o ardor na pele do sol da tarde, cristalizou-se num sentimento contraditório, sem nome, sem essência, sem compreensão racional possível! Retomou um passado, longe. Viu o seu rosto num espelho que não o seu. Significados entre linhas de uma sedução de um mar que já não tem a sua areia. O vento Norte ainda lhe traz a mesma maresia. O seu cabelo ainda é salgado, e a estrela branca cheira ao oceano que os levava em sonho, além do horizonte.
Mas já não é ela o véu que ele quer desvendar, o vestido que ele quer despir, o desejo a ser consumido numa tentação perigosa, demasiado perigosa. Ela é doce! Tornou-se doce no corpo dele. E perdeu-se da ferocidade de fêmea que ele ainda procura, numa insatisfação indeterminável, sempre insuficiente…sempre dolorosa para ela!
Despe-se e entra num banho de cheiros suaves que aquietam a dor no seu peito. Preferia chorar como das outras vezes, preferia salgar os lábios, na tentativa de procurar o impulso de bicho que ele prefere. Desistiu! Fechou a caixa de Pandora, fechou a vontade insaciada do segredo. Guardou o pecado tentador de uma Eva em luxúria e vestiu de negro a dança carmim de Salomé. O amor bate-lhe no peito num ritmo desconcertante, incerto, em ferida!
Respira devagar, com dificuldade. Respira num tem que ser imposto pela vida. Não quer morrer de amor, mas sente moribundo o uso do verbo amar, na pele e na alma!
Cheira a quente!
Ela roça o sussurro da sua saia branca, debruada em fios dourados, missangas, de cores alaranjadas. Deixa o cabelo solto, escondido numa seda transparente, que lhe ensombra, de leve, os ombros morenos. O peito pequeno, solto, da blusa entreaberta, decorada de colares em madre pérola. Cheira a quente o quarto onde ele a espera! Quieto, na sua nudez de homem proibido e desejado numa luxúria delirante. Escasso o tempo, no sol abrasador de areia deserta. Ouve-se ao longe um dialecto estranho, de uma língua dobrada, quase bárbara. Escassa o tempo que cheira a sândalo. A porta fecha-se em silêncio. O branco da sua saia despe-se nas mãos dele, procura sedento a sua boca de licor adamascado. Embriaga-se no perfume doce. Não diz qualquer palavra. A língua dos dois enrola-se. Ela sente o sabor a tâmara. Fresca, a saliva que sacia a sede. Embrenha-se na pele morena e febril dele. Acetinados os seios dela, perdidos entre dedos que a mordiscam discretamente. Sedutora e frágil, enleva-se então no colo dele, sintoniza os movimentos no mesmo ritmo dos sons em tule, que se ouvem no odor a cálido. Os colares de madre pérola soltam-se em contas perdidas no peito dele, enquanto ele olha o seu rosto feminino, afastando o cabelo solto de uma boca carmim, de lábios trincados num prazer subtil e secreto. Só os olhos verdes de ambos se falam, se sorriem. Cúmplices nesse tempo distante da geografia que os uniu nesse dia. Ondula o corpo pequeno, naquele corpo de homem grande e seu. Naquele momento, seu! Serpente dócil, deslizante, sibilina e amante.
O dialecto bárbaro continua ali próximo. Demasiado próximo! E é no silêncio igual aos sussurros das missangas, que ambos se deleitam e explodem em mel Adocicado e molhado. Depois ela repousa. Feliz e exausta. Tatuada na alma do homem proibido de sabor a tâmara e pincelado de cheiro a quente.
O mar hoje estava cinzento. Chegou ao fim da tarde. É o inverso de outros rostos. Eles chegam, ela parte. Eles partem, ela chega. Sempre o lado contrário do caminho. Da fila que se move. Ela da fila quieta. O café cheio de vozes, o seu silêncio no quarto. Os seus passos que entoam na escada, o café vazio e as chávenas marcadas de cafeína sem força. Por isso, hoje, em Leça, o mar estava cinzento! Raramente viu a espuma branca enrolada na areia. E o bolo de laranja humedecia a sua boca, de um trago de saudade de outro sabor. A flor desenhada de chocolate na chávena transparente, seria a miragem de desenhos na mesma areia, feita com a ponta dos seus dedos. Ou seriam outros os desenhos, de outros dedos? E sentiu um cansaço do contrário. Do vestido justo, de cor indefinida, do cabelo castanho avelã e dos olhos cor de esperança que a traíam, pelo cansaço do contrário. E observava pelo vidro meticulosamente lavado, o seu rosto bonitinho e vazio. Queria ser aquela mulher ali, de sorriso aberto, pé quase descalço na chinela cor-de-rosa, corpo arredondado sem vestido justo. Queria ser a outra mais além, mão dada sem medo, cabelo em desalinho e os sonhos dentro do saco cheio de areia, mas ainda com espaço para acreditar. Acreditar na mão dada sem medo! Queria ser aquela mãe ali mesmo. A lancheira azul, os filhos desembrulhados do guarda-sol, o seu homem descontraído de cigarro semi acabado, antes da porta do carro fechar, com a algazarra de família feliz dentro dele. Mas hoje o mar em Leça estava cinzento. O seu vestido tinha cor indefinida. O rosa estava no pé descalço daquela chinela, o azul na lancheira da outra mãe, o arco-íris no saco com espaço para acreditar, do casal de mão dada sem medo. E se a cor do mar de Leça, hoje, tocava e se confundia na linha do horizonte, algures na montanha distante, todas aquelas cores são o seu contrário! A fila que se move. E ela, na fila, quieta!
Quanto custa o Amor?! Pensava ela que era gratuito! Não se comprava nem se vendia. Nem sequer se dava! Amava-se e pronto! Não havia nem cara nem coroa. Não havia moeda de troca. Trocavam-se gratuitamente os dois! Trocavam sons de roupas despidas, trocavam a pele molhada no mesmo banho, moldavam-se dois num só lençol branco! Não custava nada! Ela encaixava-se no colo dele no banco do carro, cabia perfeitamente no seu abraço! As mãos de tamanhos diferentes davam-se no mesmo molde e a sintonia da música dos dois eram tão perfeita, que o mar se calava emudecido de tesão! Quanto custa o Amor?
Olhou-se na sombra e então percebeu! Abriu a palma da mão e viu a moeda! Incompleta!
Gritou desesperada: - cara ou coroa!
Só um rosto! O seu! Do outro lado, vazia a moeda! Sem coroa! Fugida algures nas coroas das rainhas flores! Por isso impossível pagar o custo do Amor! Imperfeita como a moeda na palma da sua mão! Não chegava o mesmo lençol branco, nem a água tépida do mesmo banho, nem o som das roupas despidas nem sequer o silêncio do mar emudecido de tesão dos dois!
Quanto custa o Amor?
Um preço inqualificável na desventura da verdade, que uma moeda incompleta e imperfeita jamais poderá suportar!
Chegou a casa mais cedo. Aliás, chegou a casa, na nova hora, do cedo que lhe foi imposto! Abriu o portão, menos mecânico, do que a sua vontade de entrar! O sol de Agosto pousava ao longe, perto de um mar perdido. Tinha o calor de um início de Outubro e o jardim cheirava a relva ceifada e a sebes agrestes, daquelas que fecham o seu mundo doméstico, de uma perfeição simbólica de alianças já sem brilho, baças e demasiado apertadas nos dedos. Irreflectidas pelo hábito! Entrou no quarto da cama grande. O edredão imaculado branco, a janela aberta de estores corridos, mais corridos do que as horas lentas que o esperavam. Na mesa, na varanda e novamente na cama! Despiu, apático a camisa azul, por amarrotar! Fazia tempo que não sentia as mãos atrevidas e apressadas nos seus botões pequenos, que se abriam com desejo! Em câmara lenta deixou-a cair na cama! A vida em câmara lenta, como quem degusta um vinho encorpado pelo tempo, um vinho raro, impossível, aos demais banais de o beberem! É assim! Uma vida de preço encorpado, demasiado alto e raro! Que o embriaga e o desvia da realidade normal, de quem ama, em primeiro lugar, na lista de prioridades! A mesa, logo a seguir! A porcelana! Inquebrável! Mesmo quando se estilhaça o peito! A excelência gourmet! Os sabores inigualáveis! Mas tão comuns nos gestos! Vulgares! O trivial escolhido ou imposto! Olhou-a! O cabelo loiro, preso! O rosto opaco, o olhar sem brilho! Os jeans de sempre, a t-shirt caseira! A ausência feminina do vestido leve, do cabelo solto pelos ombros, do sorriso simples! Olha-a outra vez! Olha sem a ver! Perdeu o seu rasto, recua no tempo e não sabe quando! E o preço é demasiado alto! O jantar falado num diálogo, encurralado numa Torre de Babel! Encurralado pela imagem perfeita, do marido perfeito, que ela cultiva, perdida entre os amores-perfeitos do seu jardim intocável, impermeável a outros olhares! E a noite, que ele teme! A cama grande, o edredão puro, enrolado, ao fundo! O toque que ele não quer sentir, o cheiro que ele não reconhece, o peito que não cabe nas suas mãos! O corpo que não se molda ao seu! E o preço…outra vez o preço! E ele vende-se, na escuridão da luz de presença, que o esmaga por dentro, em fragmentos sem odor! O cheque sem assinatura, no seu corpo, sem entrega! E a camisa azul, espera, na saudade de duas mãos, livres, que a amarrotem no desalinho do desejo!